Como amanhã será o segundo domingo do mês de maio, comemorar-se-á o Dia das Mães. Emily Machado Muguet perdeu o pai Nilo Muguet em 2025 e quando completou um ano do seu falecimento escreveu um comovente texto sobre a sua relação com ele. Decidimos publicá-lo no nosso site não só pela sua qualidade, mas principalmente para lembrar a todos da importância de se aproveitar os momentos junto com os seres vivos que amamos porque nunca saberemos quando serão os últimos!
Segue abaixo o texto dela:
“O luto é como o cheiro de bolinho de chuva que insiste em ficar na cozinha mesmo depois que o fogão já esfriou. Meu pai não morava comigo. Quando ele e minha mãe se separaram, eu ainda era pequena demais para entender certas ausências. Mas ele sempre estava ali, de um jeito só nosso. Às vezes, quando eu saía da escola, ia para a casa dele. Era perto. Era simples. Era nosso. Eu passava a tarde lá. Às vezes dormia. E tinha dias em que tudo que importava era o som do óleo chiando e ele tentando acertar o ponto perfeito do bolinho de chuva, crocante por fora, com aquele creminho por dentro, exatamente do jeito que eu amava. Ele me chamava de “filhotinho”. Eu dormia abraçada com ele e o mundo parecia caber ali. No dia 24 de maio de 2024, numa conversa que surgiu do nada, como se o destino estivesse sussurrando… ele disse que queria que no dia do enterro dele tocasse “Forever Young”. Eu não ri. Eu não achei distante. Eu salvei a música nas notas do meu celular para não esquecer. Para garantir que quando chegasse a hora, mesmo que eu não quisesse que chegasse, a vontade dele seria feita. Eu não imaginava que seria praticamente um ano depois, no mesmo mês, no dia 3 de maio de 2025. O luto não é uma cadeira vazia na minha casa. É o caminho da escola que nunca mais termina na casa dele. É o cheiro de açúcar e canela que agora machuca um pouco. É ouvir “Forever Young” e sentir o coração apertar e aquecer ao mesmo tempo. É sentir falta de ser chamada de “filhotinho”. É sentir falta do abraço que me fazia dormir. É saber que nunca mais vou comer um bolinho de chuva exatamente igual ao dele. É sentir falta de assistir os jogos do Botafogo com ele, de dividir cada lance, cada gol, cada esperança. É saber que ele não conseguiu me levar ao Estádio Nilton Santos como ele tanto queria e sempre dizia que um dia levaria. Mas o luto também é isso… é prova de que existiu amor, de que existiram tardes simples que hoje são tesouros. De que um pai pode não morar na mesma casa, mas morar inteiro dentro da filha. Ele queria “Forever Young”. E de algum jeito, ele é. Porque na minha memória ele sempre vai estar rindo na cozinha, acertando o ponto da massa, me chamando baixinho, como se o tempo nunca fosse tocar nele. E talvez o luto seja isso: não esquecer. Mas, aprender a amar alguém que agora mora na lembrança”.
Emily Machado Muguet.
