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COLUNISTAS

O sonho entre plumas e paetês

por Marcelo Sampaio 15 de março de 2026

Nasci e fui criado em Campos e desde muito jovem era fascinado pelas fantasias de luxo tanto dos concorridos concursos como dos deslumbrantes desfiles das escolas de samba.

Estreei na avenida pela Escola de Samba Congos no Carnaval de 1994 em São João da Barra e nestes 32 anos meu amor cresceu ao ponto de já ter desfilado em várias grandes agremiações carnavalescas do Rio de Janeiro.

Esta fantasia da minha estreia foi toda bordada por mim sozinho, pois não possuía equipe naquela época, assim como eu mesmo tingi de roxo todas as suas penas e plumas mergulhando-as até obter o tom desejado numa banheira velha, cheia de álcool e anilina, que havia em casa.

Neste desfile representei “O Imperador Bizantino” e desfilei junto com a minha irmã Kátia Pires que representou uma “Ave Encantada”, fantasia também confeccionada por mim.

Espero que gostem desta minha primeira coluna neste site, primeiro e único portal carnavalesco do interior do estado do Rio de Janeiro, e agradeço o convite para estar aqui feito pelo querido amigo de quase quatro décadas Marcelo Sampaio, que me conhece profundamente.

Aguardo comentários e até semana que vem!

15 de março de 2026 0 comentários

Campeã do Carnaval de São Paulo tem três fundadores e dois ex-presidentes campistas – Por Matheus Berriel

por Marcelo Sampaio 20 de fevereiro de 2026

A cidade de Campos dos Goytacazes possui estreita relação com a Mocidade Alegre, campeã do Grupo Especial no Carnaval de São Paulo. Três dos fundadores da escola de samba são naturais da planície goitacá. Dois deles, inclusive, foram presidentes da agremiação, que venceu três das últimas quatro edições dos desfiles paulistas. Outro fator do vínculo é o nome Mocidade Alegre, inspirado em um bloco fundado em Campos na década de 1930.

O surgimento do que mais tarde seria a Mocidade Alegre remete ao Carnaval de 1950, quando um grupo de amigos decidiu curtir a folia com roupas femininas. Entre eles estavam os irmãos Juarez e Salvador da Cruz, campistas que haviam se mudado para São Paulo dois anos antes. A brincadeira se repetiu nos carnavais seguintes, ganhando novos adeptos, como um irmão de Juarez e Salvador, o também campista Carlos Augusto da Cruz.

Em 1958, aquele grupo de amigos chegou a ser batizado como Bloco das Primeiras Mariposas Recuperadas do Bom Retiro, numa alusão ao bairro paulistano onde moravam os integrantes. Porém, o nome definitivo seria dado em 1963, após um desfile em que os foliões usaram fantasias de palhaços. Era uma época em que a Rádio América promovia o Carnaval de Rua da Avenida São João, e o locutor Evaristo de Carvalho definiu aquele grupo como “muito alegre”. Por decisão dos membros, esse adjetivo deu origem ao novo nome do bloco: Mocidade Alegre.

Quando foi criada a Federação das Escolas de Samba de São Paulo, em 1967, o bloco ganhou estatuto e teve a sua oficialização como escola. Juarez da Cruz tornou-se o primeiro presidente, e seus irmãos Salvador e Carlos Augusto também participaram da fundação. Juarez manteve-se na presidência até 1992, tendo Salvador como um dos diretores. Carlos Augusto, por sua vez, foi presidente de 1992 a 1998. Mais tarde, os cargo seria ocupado por duas filhas de Carlos, Elaine e Solange Cruz, sendo Solange a atual presidente. A conquista da última terça-feira (19) foi a 13ª da Mocidade Alegre, ficando a apenas duas da Vai-Vai, maior campeã na Terra da Garoa.

No boca-a-boca popular, tornou-se conhecida a história de que o substantivo Mocidade foi escolhido pelos membros da Mocidade Alegre em alusão à escola de samba Mocidade Louca, de Campos. Porém, a partir de pesquisas em livros e jornais da época, o jornalista Matheus Berriel chegou à conclusão de que a homenagem remete a outra entidade carnavalesca campista, já extinta. O esclarecimento a respeito do tema consta no trabalho de conclusão de curso “Meninos do Morrinho: Um flash da televisão sobre o sucesso da cultura popular”, de 2018, em que Berriel e o também jornalista Jadir de Oliveira esmiuçaram momentos importantes do passado do Carnaval campista.

Na década de 1930, retornando a Campos após ter morado no Rio de Janeiro, o compositor Jorge da Paz Almeida atuou no São Cristóvão, time de futebol amador sediado no Parque Rosário. Com o intuito de animar as viagens da equipe a localidades do interior, ele e os companheiros criaram uma bateria, que recebeu o mesmo nome de um bloco do bairro carioca de São Cristóvão: Mocidade Louca. Esse grupo de jogadores e músicos amadores também participou do Carnaval local, se apresentando em batalhas de confetes na Avenida Pelinca e na Rua José do Patrocínio. Posteriormente, se dissolveu.

Também no Parque Rosário, mais precisamente na comunidade do Morrinho, foi criada em 1952 a Academia de Ritmos Mocidade Louca. Tratava-se de outro bloco de embalo, elevado à categoria de escola de samba em 1959, mesmo ano em que conquistou o primeiro dos seus 16 títulos no Grupo Especial de Campos. O próprio Jorge da Paz Almeida, membro do bloco dos anos 1930, foi diretor da nova Mocidade Louca, que se mantém ativa até os dias atuais. Quando a atual Mocidade Louca surgiu, portanto, os irmãos Cruz já moravam em São Paulo havia quatro anos, tendo na memória apenas os velhos carnavais da Mocidade Louca que animou as viagens do São Cristóvão campista e as batalhas de confetes da Pelinca.

Foto: Felipe Araújo/Liga-SP

20 de fevereiro de 2026 0 comentários

13ª Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 30 de novembro de 2025

“O Último Azul” e o primeiro passo: Por uma sociedade que valorize o processo natural do envelhecimento

Assim que eu soube que o tema da redação do Enem 2025 foi sobre o envelhecimento da sociedade brasileira considerei pertinente essa questão, finalmente, ter sido colocada no centro do debate, tendo em vista que mais de quatro milhões de pessoas debruçaram-se para refletir sobre a seriedade dessa pauta para a construção de um país mais acolhedor e que saiba integrar a intergeracionalidade com equidade.

Foi numa tarde primaveril do derradeiro setembro, quando assisti ao filme “O Último Azul”, no Cine Bardot em Búzios, que fui atravessada de maneira aguda pelo intrigante questionamento: Se envelhecer é destino comum, por que concebê-lo com dignidade ainda é privilégio de poucos? O filme projetou um facho de luz em uma realidade que desnuda um possível Brasil do amanhã e a relação desconectada com sua população idosa.

Muito embora a ficção tratasse de uma distopia, havia uma verossimilhança que parecia transpassar a tela e se sentar na poltrona ao lado, quando a narrativa refletia a negligência diária e a prática discriminatória nomeada etarismo, a qual empurra as pessoas de mais idade para o lado de fora da vida social fechando-lhes as portas da vida simbólica do país, como se envelhecer não fosse motivo para ser concebido como dádiva e sim como um defeito existencial.

Sigo eu, em minha vã filosofia, escolhendo acreditar que o tempo quando se encontra com o talento, acaba se transformando em aliado e não inimigo pessoal. E é justamente na oportunidade desse encontro que a arte dialoga com ambos e promove uma perfeita simbiose.

Vejo Maria Bethânia, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Fernanda Montenegro e tantos outros gigantes que seguem em comunhão com o tempo e produzindo na plenitude do poder criativo. A cada aparição e fala pública desses artistas tem-se uma resposta viva que não abre espaço ao contraditório das crenças limitantes que insistem em ditar quando é que começa e termina a potência humana.

Nesse viés, destaco ainda o ator Marco Nanini que, há cerca de um ano o assisti no palco da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Na ocasião, convalescente e em cadeira de rodas, o ator entregou ao público “O Traidor”, monólogo dirigido por Gerald Thomas, com uma performance tão intensa que fez ruir qualquer noção rasa sobre o paradigma de vitalidade. Porque entendi, já há algum tempo, que vitalidade não é sobre arcabouço físico, é sobre espírito e o desejo de seguir produzindo, comunicando, construindo e atribuindo sentido à própria existência. Nanini, naquela noite, era a personificação evidente de que arte e vida podem sim desafiar a lógica de qualquer limite e estigma social impostos de fora para dentro.

Urge a ampliação do debate sobre envelhecimento, começando por romper com práticas discriminatórias e a ampliação de políticas públicas que incluam o envelhecimento como pauta de governos.

Leitura, cinema, música, teatro, dança: tudo o que amplia o olhar também amplia o horizonte. E quem amplia o horizonte envelhece melhor, porque o futuro que vê é feito de menos ameaças e mais possibilidades. Talvez seja esse o recado contido nas entrelinhas do Enem 2025, do filme, da arte e dos mestres que seguem inspirando: envelhecer não é desaparecer. Envelhecer é permanecer existindo e colorindo a vida de azul, mesmo quando o mundo tenta apagar essa existência, pintando-a de cinza.

Nota da Semana

No próximo dia 5 de dezembro o Clube Cultural 3meia8 irá promover uma ação multicultural em parceria com o Centro Cultural Marcelo Sampaio, para celebrar e fomentar a Consciência Negra. Haverá apresentação teatral, samba, exibição de audiovisual e diversas outras manifestações culturais, com início às 20h. Siga o espaço no Instagram, para mais informações: @3meia8 .

“Fantasias Textuais”

“[…] Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.”

Trecho do poema “Guardar”, de Antonio Cicero.

30 de novembro de 2025 0 comentários

Quinta Coluna do Jorginho Ibrahim

por Marcelo Sampaio 25 de outubro de 2025

INDEPENDENTE DE BOA VISTA: 50 ANOS DE SAMBA, HISTÓRIA E EMOÇÃO NO CORAÇÃO DO CARNAVAL CAPIXABA

Há 50 anos um batuque nascia nas ruas do bairro Itaquari,em Cariacica, e com ele um sonho que jamais se calaria.

A Independente de Boa Vista chega ao seu cinquentenário como uma das escolas mais queridas e respeitadas do Carnaval capixaba — símbolo de resistência, paixão e da força de uma comunidade que faz do samba sua maior expressão de vida.

Ao longo de meio século, a agremiação construiu uma trajetória marcada por desfiles memoráveis, sambas que embalaram multidões e histórias que atravessam gerações. No barracão entre brilhos, costuras e batuques, a Boa Vista cresceu, amadureceu e se tornou um patrimônio cultural do Espírito Santo.

Hoje, quem conduz essa história com garra e emoção é Emerson Xumbrega, presidente e também intérprete oficial da escola. Mais que um líder, Xumbrega é a voz e o coração da Independente. Sua presença contagia, sua dedicação inspira, e sua voz potente ecoa como símbolo da identidade boa-vistense. Sob sua liderança, a escola reafirma seu compromisso com a cultura, com o povo e com a alegria que move o Carnaval.

Rumo ao Carnaval 2026

O jubileu de ouro da Independente de Boa Vista ganha um significado ainda mais especial com a preparação para o Carnaval 2026, quando a escola promete um desfile histórico. O enredo deste ano vai celebrar a própria trajetória da agremiação e sua ligação com a comunidade, trazendo para a avenida uma mensagem de fé, luta e pertencimento.

Enquanto isso, o Carnaval capixaba como um todo também vive um momento de exaltação à Cultura Popular. A escola de samba do bairro Itaquari, de Cariacica, apresentará o enredo “João do Congo: A voz que dança nas folhas da resistência”, uma homenagem poderosa à ancestralidade, à liberdade e à força das tradições afro- brasileiras.

Esse diálogo entre os temas mostra como o samba do Espírito Santo continua sendo um espaço de resistência, identidade e celebração — onde cada escola, a seu modo, reafirma a grandeza do povo capixaba.

Comemorar 50 anos da Independente é celebrar o amor de uma comunidade inteira. É reconhecer cada ritmista, passista, baiana, mestre-sala, porta-bandeira, costureira e sambista anônimo que ajudam a manter viva essa bandeira.

A Boa Vista não é apenas uma escola de samba — é um sentimento que vibra a cada batida do surdo, a cada canto do puxador, a cada lágrima que escorre na avenida.

Que venham novos sambas, novos carnavais e novos sonhos porque a Independente de Boa Vista é eterna — e seu compasso continua marcando a história do nosso Carnaval capixaba.

25 de outubro de 2025 0 comentários

Quarta Coluna do Jorginho Ibrahim

por Marcelo Sampaio 11 de outubro de 2025

Novo Império aposta na ancestralidade feminina para brilhar no Carnaval 2026

A Escola de Samba Novo Império já definiu sua narrativa para o próximo desfile e promete emocionar a avenida no Carnaval de 2026. Com o enredo “Aruanayê – Guardiãs dos Mistérios Ancestrais”, desenvolvido pelo carnavalesco Osvaldo Garcia, a azul e branco de Caratoíra coloca no centro do espetáculo a força espiritual de mulheres negras e indígenas, guardiãs de saberes e tradições que atravessam séculos.

Enredo e concepção

Segundo a proposta, o desfile vai destacar a ancestralidade feminina como eixo de resistência, cura e sabedoria, em uma narrativa que mescla culturas africanas e indígenas. O tema foi definido pela escola como anti-hegemônico e decolonial, ou seja, um resgate de vozes silenciadas pela história oficial, mas que permanecem vivas na espiritualidade e na Cultura Popular.

De acordo com o diretor de Carnaval Luiz Felipe a escola pretende apresentar um espetáculo de forte impacto visual e sensorial, com símbolos da natureza, rituais xamânicos e referências a divindades femininas, como orixás ligadas à água, à terra e à fertilidade.

Samba-enredo

O samba escolhido para embalar o desfile foi lançado oficialmente em setembro e já caiu no gosto da comunidade. Na voz de Danilo Cezar, a obra tem recebido elogios pela cadência envolvente e pela poesia que reforça o caráter místico do enredo. O refrão forte e de fácil assimilação deve ajudar na vibração da torcida imperiana na arquibancada.

Destaques e segmentos

A Novo Império apresentou também seu novo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Wesley e Klaura, que terão a missão de defender com garra o pavilhão verde e branco. A bateria, comandada pelo mestre Vinícius Seabra, conhecida por sua pegada firme e envolvente, prepara bossas e paradinhas que dialogam com a proposta ancestral, buscando unir batidas modernas com sonoridades de rituais.

A expectativa é que a comissão de frente traga uma coreografia impactante, representando o encontro espiritual das guardiãs ancestrais, abrindo caminho para as alegorias. Já as baianas, com seu peso tradicional, prometem um figurino que exalte a sabedoria feminina como raiz do samba e da resistência cultural.

Críticas e expectativas

Especialistas já apontam que a Novo Império chega com um dos enredos mais fortes e ousados da temporada. A aposta em uma narrativa mística, feminista e decolonial pode render tanto aplausos pela atualidade e profundidade, quanto críticas pela complexidade de execução. O desafio será transformar um tema conceitual em espetáculo claro, coeso e acessível ao grande público.

Se conseguir unir plástica, emoção e organização, a escola tem chances reais de disputar as primeiras colocações, repetindo momentos históricos em que já surpreendeu na avenida.

O peso da tradição

Fundada em 1976, a Novo Império carrega no nome o peso da nobreza e da resistência cultural. Ao longo de sua trajetória, a escola consolidou-se como um dos pilares do Carnaval capixaba e em 2026 volta à avenida reafirmando sua identidade: tradição popular, enredos marcantes e a força de uma comunidade que respira samba o ano inteiro.

11 de outubro de 2025 0 comentários

12ª Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 5 de outubro de 2025

Um “Rio vivo” de emoções entre acordes e canções: A genialidade de Francis Hime em 85 anos de vida e 60 de carreira

Presenciar o show de lançamento do álbum “Não navego pra chegar” de Francis Hime, recentemente no Vivo Rio, foi uma verdadeira experiência multissensorial. Cada acorde e arranjo pareciam tocar não apenas os ouvidos, mas também a alma do público presente, que se deixou conduzir pela poesia e intensidade das músicas. A noite contou com participações especiais que enriqueceram ainda mais o espetáculo, entre elas Zélia Duncan, Simone, Mônica Salmaso, Leila Pinheiro e outros grandes nomes. Porém, a entrada de Ivan Lins em cena, cuja voz aveludada e firme conferiu uma carga de emoção sublime à canção “Imaginada”, interpretada ao lado de Francis Hime e composta por Olívia Hime, transformando o momento em um apogeu de delicadeza e lirismo que muito mexeu com minha imaginação. No alto dos seus 85 anos de vida, Francis Hime segue esbanjando genialidade e a riqueza da sua arte. Na ocasião, foram comemorados também os seus 60 anos de carreira, um marco impresso nas entrelinhas do título do trabalho, que faz alusão à sua maneira singular de navegar na vida sem preocupar-se com a pressa da chegada, mas em vivenciar a plenitude do percurso. Entre emoção e encantamento, ficou a sensação pungente de ter participado de um culto aos deuses do Olimpo, onde a música foi rito, celebração e portal sagrado. Francis Hime, com sua maestria, mostrou mais uma vez porque é um dos nomes mais respeitados da nossa música. E o Vivo Rio se transformou, naquela noite, em um oráculo de devoção e veneração à arte e à poesia cantada.

Nota da Semana

O Oráculo Espaço do Saber abriu suas portas no pôr-do-sol de um sábado para exibir o curta-metragem “O menino da pipa avoada” dirigido por Fernando Rossi e com texto de Adriano Moura. A trama une delicadeza poética e dimensão educativa, abordando a importância do uso consciente da pipa sem cerol, sem perder de vista a magia que esse brinquedo carrega. O músico Matheus Nicolau assina uma trilha sonora rara e sensível, com arranjo e letra leves e delicados como a pipa. Mais do que uma história sobre um menino que almeja pelo brinquedo sonhado, penso que o curta é um convite para nutrir a essência da criança interior que em cada um habita, lembrando-nos de que voar alude à ideia de deixar-se levar pela esperança e pela imaginação. Vale a pena seguir o perfil no Instagram para acompanhar a agenda: @omeninodapipaavoada_ofilme.

“Fantasias Textuais”

“Os livros são objetos transcendentes

Mas podemos amá-los do amor táctil

Que votamos aos maços de cigarro

Domá-los, cultivá-los em aquários

Em estantes, gaiolas, em fogueiras

Ou lançá-los pra fora das janelas

Talvez isso nos livre de lançarmo-nos

Ou o que é muito pior por odiarmo-los

Podemos simplesmente escrever um”. Trecho da canção “Livros”, de Caetano Veloso.

5 de outubro de 2025 0 comentários

Terceira Coluna do Jorginho Ibrahim

por Marcelo Sampaio 4 de outubro de 2025

Unidos da Piedade 2026 –O Canto Livre de Papo Furado

“Eu moro naquela montanha e as pedras são minhas vizinhas, Piedade se você me ama aceite essa lembrança minha”

Falar de Edson “Papo Furado” é falar de um personagem que ultrapassa a figura do sambista e se transforma em mito da cultura popular capixaba. Homem simples, irreverente e apaixonado pelo samba, Papo Furado fez da rua seu palco e do povo sua plateia. Era daqueles que chegava de mansinho, mas tomava conta do ambiente com suas histórias, sua gargalhada e sua capacidade de improvisar versos que arrancavam sorrisos e aplausos.

Nos bares, nas praças, nas rodas de amigos, Papo Furado era mais que presença: era essência. Sempre com um “causo” para contar, sempre pronto para soltar uma poesia, sempre lembrado como alguém que sabia transformar o cotidiano em espetáculo. Sua figura é lembrada como a do boêmio romântico, que viveu intensamente o samba sem jamais abandonar suas raízes.

A Unidos da Piedade, primeira escola de samba do Espírito Santo, entendeu a dimensão dessa memória e decidiu imortalizar Papo Furado na avenida. É um encontro perfeito: a escola que representa tradição, luta e resistência cultural, homenageando um homem que carregava nos ombros a alma do samba capixaba.

Para 2026, a escolha do enredo é também um gesto político e cultural: valorizar quem nasceu e cresceu no chão da comunidade, quem ajudou a construir a identidade popular do estado. Não é apenas uma homenagem, mas um manifesto de que o Carnaval não deve se afastar de suas origens.

O samba-enredo vencedor abraçou essa ideia. Com melodia envolvente e versos carregados de emoção, o samba traduz Papo Furado como símbolo eterno. Cada palavra lembra a boemia, a malandragem e a poesia de sua vida. Cada refrão é um grito de resistência: de que o samba vive porque homens como ele o eternizaram.

Segue o link do samba-enredo campeão da Unidos da Piedade 2026

https://youtu.be/q5TiJuhxwjs?si=FLvCJ-e_mp9Hq6SA

Nos ensaios, o morro vibra. A comunidade canta como se cantasse sua própria história — porque, de certa forma, canta mesmo. O samba não é só sobre Papo Furado; é sobre todos os que vivem e respiram samba no dia a dia, fazendo da cultura popular um ato de sobrevivência.

A força da homenagem

A Unidos da Piedade não leva para a avenida apenas um enredo. Leva consigo uma lenda, um jeito de ser, uma memória coletiva. Papo Furado será lembrado como ele sempre foi: sorridente, irreverente, apaixonado pela música e pela vida.

Em 2026, quando a verde, vermelho e branco abrir suas alas e o primeiro toque da bateria ecoar, não será apenas um desfile. Será uma roda de samba gigante, uma noite de poesia transformada em espetáculo. Será, acima de tudo, a consagração de Edson Papo Furado como patrimônio eterno do samba capixaba.

E com certeza, se Papai do Céu permitir, Papo Furado Estará na avenida, com seus 86 anos bem vividos para abrilhantar o Carnaval da Unidos da Piedade 2026.Viva Papo Furado. Viva o samba.

4 de outubro de 2025 0 comentários

Segunda Coluna do Jorginho Ibrahim

por Marcelo Sampaio 13 de setembro de 2025

Chegou o Que Faltava 2026: O Orí que guia o coração do povo capixaba

A comunidade de Goiabeiras já está em festa e a expectativa só cresce para o desfile da escola Chegou o Que Faltava no Carnaval de Vitória 2026. Depois de conquistar o título do Grupo A em 2022, a agremiação vai fazer ano que vem o seu quarto desfile consecutivo no Grupo Especial desta feita com um enredo forte, emocionante e repleto de identidade cultural: “Orí – Sua cabeça é seu guia”.

Com a assinatura do carnavalesco Roberto Monteiro, a escola mergulha fundo na riqueza da cultura afro-brasileira e nos mistérios da filosofia iorubá, exaltando o Orí — que simboliza a cabeça, a mente, o destino e a força espiritual que guia cada um de nós.

O samba-enredo, assinado por Júnior Fionda e embalado pela interpretação poderosa de Igor Vianna, traz versos que falam da conexão ancestral, dos orixás e da força da comunidade capixaba. É um chamado para o autoconhecimento, para olhar para dentro e reconhecer que a verdadeira liderança nasce da cabeça e do coração.

Na passarela, a Chegou o Que Faltava promete encantar com suas cores azul, rosa e branco, carros alegóricos exuberantes e alas que vão homenagear as belezas naturais do Espírito Santo, como o manguezal de Goiabeiras e figuras históricas que marcaram a trajetória do povo.

O público pode esperar um desfile vibrante, cheio de emoção e uma energia contagiante — afinal, essa escola sabe fazer samba no pé e levantar a arquibancada!

Enquanto o samba ecoa e os tamborins começam a chamar, fica claro que o que faltava no Carnaval capixaba chegou com força, história e coração. E com certeza, a Chegou o Que Faltava vai deixar sua marca no coração de Vitória em 2026.

Segue o link para acompanhar o samba-enredo 2026:

https://youtu.be/Ek1MM-ZeLSc?si=iiNrhid2baussowM

Unidos de Jucutuquara 2026 — Arreda homem, que aí vem mulher!

A Unidos de Jucutuquara chega para o Carnaval de Vitória 2026 com um enredo que vai fazer a arquibancada ferver! Com o tema “Arreda homem, que aí vem mulher!”, a escola coloca as mulheres no centro do samba e da avenida, exaltando a força, a coragem e o empoderamento feminino em todos os cantos da sociedade.

O enredo é um verdadeiro grito de liberdade, mostrando a mulher que conquista seu espaço, quebra barreiras e transforma o mundo à sua volta. A proposta é destacar histórias de mulheres inspiradoras, sejam elas anônimas ou figuras marcantes das culturas capixaba e brasileira.

O samba-enredo vencedor foi escolhido em um animado concurso promovido pela escola no último domingo, que reuniu compositores locais e da região. A letra, cheia de ritmo e emoção, celebra essa força feminina e já conquistou o coração da comunidade e dos intérpretes oficiais, que vêm ensaiando para levar muita energia à avenida.

A escolha do samba foi feita com a participação ativa da comunidade da Jucutuquara, que lotou a quadra em uma festa inesquecível. O clima foi de celebração e união, mostrando a importância do samba como alma do Carnaval e elo entre a escola e seu povo.

No comando do visual e do espetáculo está o talentoso,Marcelo Braga, que prepara um desfile colorido e vibrante, com alegorias que simbolizam a diversidade e a potência feminina, além de fantasias repletas de detalhes que emocionam e impressionam.

A Unidos de Jucutuquara reforça, assim, sua tradição de levar para a avenida desfiles cheios de significado, emoção e conexão com a comunidade. Em 2026, o samba vai ecoar alto para mostrar que a mulher é protagonista — e, como diz o tema, é melhor abrir espaço porque “arreda homem, que aí vem mulher!”

Ouça o samba-enredo campeão da Jucutuquara 2026:

https://youtu.be/eJiGgSytOd0?si=H6oTu6pjb6RQgw07

 

13 de setembro de 2025 0 comentários

Primeira Coluna do Jorginho Ibrahim

por Marcelo Sampaio 6 de setembro de 2025

Apresentação

Olá, eu sou Jorginho Ibrahim, e minha história mistura jornalismo, Carnaval e muito samba no pé. Já fui colunista no início do site Carnaval de Campos, ajudando a contar e registrar a festa mais colorida da cidade. Também tive a honra de ser vice-presidente da União dos Blocos de Samba de Campos, onde aprendi que organizar Carnaval é quase tão emocionante quanto desfilar. Ah, e ainda tive a oportunidade de julgar os tradicionais desfiles dos bois-pintadinhos e blocos de samba de Campos (sim, é um privilégio e uma responsabilidade enorme!). Sou apaixonado por Cultura Popular e por contar histórias — seja na avenida ou fora dela. Hoje resido no Espírito Santo, onde o Carnaval é tão apaixonante quanto o nosso Carnaval de Campos. Vou contar para vocês um pouco do Carnaval capixaba.

Do surdo ao silêncio: o Carnaval de Vitória entre o brilho e os bastidores

O vento que traz samba e sal

O vento que sopra da Baía de Vitória no Carnaval não é o mesmo de qualquer outro dia. Ele traz sal, purpurina e o grave do surdo, que atravessa as ruas, bate no peito e obriga o corpo a dançar, mesmo que discretamente. No Sambão do Povo, arquibancadas viram mundos à parte: famílias inteiras pintadas de glitter, foliões que se conhecem desde os primeiros ensaios, turistas que descobrem que, aqui, a festa tem sabor de moqueca e cheiro de mar.

Entre campeões e memórias vivas

Este ano, a Independente de Boa Vista fez jus à fama e cravou seu heptacampeonato. Homenageando Sebastião Salgado, a escola transformou a avenida num álbum vivo de fotografias: imagens que pareciam sair das alegorias e ganhar movimento. Foi técnica, mas também foi emoção. A Chegou O Que Faltava mostrou que Goiabeiras não é só panela de barro — é identidade, resistência e criatividade. E a Andaraí, no Acesso, trouxe o Mercado da Capixaba com suas cores, sons e memórias, arrebatando corações e garantindo o retorno ao Grupo Especial.

O outro lado do confete

Mas, para além das luzes e confetes, os bastidores contam outra história. Muitas escolas ainda sofrem com patrocínios insuficientes e verbas públicas que chegam tarde. Há carnavalescos improvisando com material reciclado, costureiras virando noites para entregar fantasias e comunidades que fazem vaquinha para não deixar o samba morrer. No Acesso, a falta de estrutura é ainda mais evidente: menos recursos, menos mídia e a mesma paixão. Nos blocos de rua, a alegria é democrática, mas a organização nem sempre acompanha. Banheiros insuficientes, limpeza demorada e segurança limitada ainda são problemas. E quando se compara a grandiosidade cultural do evento com a pouca projeção nacional que ele recebe, fica claro que falta planejamento estratégico para transformar o Carnaval de Vitória num produto turístico de peso. Mesmo assim, quando o primeiro surdo bate, tudo muda. É como se cada capixaba soubesse de cor o que fazer: desfilar, cantar, dançar. Porque o Carnaval daqui é isso — feito com o que se tem, carregado de história e temperado com paixão. E, no fim das contas, é essa paixão que mantém o brilho, mesmo quando as luzes se apagam e o Sambão do Povo volta ao silêncio!

6 de setembro de 2025 0 comentários

11ª Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 21 de maio de 2025

II Seminário Junino da Lidanfoc e a pedagogia dos folguedos como guardiões da tradição e territórios de pertencimento

No último sábado, 17, a Academia Campista de Letras abriu suas portas para o II Seminário Junino de Campos dos Goytacazes, o qual foi realizado pela Liga de Danças Folclóricas do referido município, a Lidanfoc. O encontro foi uma ocasião mais que oportuna para reverenciar a alma viva da cultura popular, embasado na práxis dialética que fomenta o diálogo entre os saberes tradicionais e acadêmicos. Esta premissa sustenta-se em virtude da ilustre presença do Secretário Municipal de Educação, Marcelo Feres, e do célebre professor e pesquisador de Cultura Popular, Marcelo Sampaio, que brindaram o referido evento com reflexões potentes. Enquanto este explanou acerca da “História da Cultura Popular” – destacando a diferença entre o que é cultura de massa e cultura popular – aquele discursou sobre “O elo entre Educação e Cultura”, evidenciando o quão fundamental é que, em outras palavras, a escola valorize a gama de fios que tecem a identidade de um povo. Ambos, com suas falas generosas, trouxeram à tona a urgência de manter vivas as tradições, não como algo do passado, mas como expressão orgânica, contínua e dinâmica do e no presente. Uma das ideias mais marcantes do encontro foi a indissociabilidade entre cultura e educação. Cultura não é acessório da educação – é seu corpo, sua alma e sua linguagem. Levar a cultura popular para dentro das escolas é mais do que necessário: é ato de pertencimento, de enraizamento, de reconhecimento das vozes que cantam, dançam, bordam e contam histórias neste chão. O seminário também se configurou como preâmbulo para a temporada dos folguedos juninos, julinos, agostinos e, por que não, setembrinos, que se aproxima com seus arraiás, quadrilhas, cores, sabores e saberes compartilhados. Uma verdadeira celebração do espírito coletivo, da musicalidade dos encontros e da resistência festiva que encanta e pulsa em nossas tradições. É preciso, sim, preservar a Cultura Popular e garantir que ela adentre os portões escolares com a dignidade que merece. Que nossas crianças e jovens não apenas “vejam” as festas populares, mas as reconheçam como heranças vivas e como manifestações legítimas de um povo que outrora, mas também no tempo presente, apropria-se do próprio corpo como instrumento de expressão com o riso e com o ritmo; com a fé e com muita festa. Entre memórias, histórias, manifestações, resistências e quereres, o II Seminário Junino promovido pela Lidanfoc exprimiu a mensagem que celebrar também é aprender. E que a conjugação dos verbos aprender e celebrar, na prática, só faz sentido quando o chão que pavimenta o caminho percorrido pelos sujeitos envolvidos é feito de afeto, saberes e partilha.

Nota da Semana

No próximo dia 22 iniciar-se-á o projeto artístico-cultural da Cafeteria Mandy em parceria com o Centro Cultural Marcelo Sampaio, intitulado “Notas em Café”, às 19h, na Rua Marcílio Dias, nº 29 – final da Avenida Pelinca. A cada encontro mensal o pesquisador de Cultura Popular, professor Marcelo Sampaio, estará na direção de um espetáculo lítero-musical e nesta primeira edição, o “Especial Chico Buarque” será brindado com o violão e voz do músico Marcelo Ribeiro e participação especial desta colunista que, além de escrever, também permite-se a aventura de cantar!

“Fantasias Textuais”

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. […] É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade…” Nise da Silveira, médica psiquiatra pioneira na defesa do tratamento humanizado para pacientes com transtornos mentais.

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