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10ª Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 11 de maio de 2025
11 de maio de 2025
478

“Maman” e as teias de afeto que sustentam o simbólico: Uma homenagem à força invisível das mães

Foi nos primeiros bafejos da Primavera carioca de 2011 que testemunhei a exposição, ao meu ver e até o momento atual, mais impactante e detentora de uma estética desconcertante, instalada no Museu de Arte Moderna do Rio: “O retorno do desejo proibido”, da artista franco-americana Louise Bourgeois que, fortemente inspirada pela Psicanálise, projetou em suas obras os conflitos internos resultantes dos traumas infantis e dos desejos recalcados e moldados por experiências afetivas, sobretudo as vividas no ambiente familiar. Claramente a intenção da artista era provocar no público sentimentos ambíguos, como desconforto-identificação, repulsa-encantamento. A começar pela monumental escultura instalada nos jardins do Aterro do Flamengo e que media cerca de 10 metros de altura: “Maman”, que em francês significa “Mamãe”, uma aranha gigante e que parecia tocar o Firmamento, fazia alusão à vida e ao poder criativo. A aranha, tradicionalmente vista como um ser ameaçador ou que provoca repulsa, foi ressignificada pela artista como símbolo do poder feminino e força materna, ao mesmo tempo que evoca cuidado, proteção e criação perante o entrelaçar de fios, teias e tramas da vida. Paradoxalmente, a sensação diante daquela criatura metálica era de pequeneza e, ao mesmo tempo, de proteção. Maman não despertava medo, como as aranhas costumam fazer, mas respeito e até uma ternura desconcertante. Havia nela uma dignidade silenciosa, como a das mães que sustentam o mundo nos bastidores da vida. Bourgeois não entregou símbolos ao acaso, cada escultura e material escolhido tem raízes em sua biografia emocional. A aranha, figura recorrente em sua obra, é um tributo a sua mãe, uma restauradora de tapeçarias e mulher sábia, precisa, silenciosa… Verdadeiro arquétipo da tecelã a engendrar a própria vida e destino. Caminhar entre as esculturas da exposição era como percorrer os corredores íntimos da memória de Bourgeois. As obras não se impunham apenas pelo tamanho, mas pela força emocional que emanavam. Cada uma parecia guardar segredos ancestrais: dores silenciosas, afetos sem alinhavos, traumas convertidos em beleza crua. A exposição, naquele setembro que inaugurava a Primavera, lembrava que a arte também pode ser um jardim de cicatrizes, revelando haver forças que nos protegem mesmo quando não as vemos e artes que nos tocam onde sequer imaginávamos. Maman é uma ode à mãe, ao feminino, à memória e à complexidade emocional dos vínculos. Louise Bourgeois transformou a figura da aranha, tradicionalmente repulsiva, em um ícone de amor, força e proteção. É uma obra que impõe presença e convida à introspecção: sobre quem nos criou, quem nos protegeu e como lidamos com as memórias afetivas dessa figura ao longo da vida.

Nota da Semana

Estreia na próxima terça-feira, 13 de maio, às 20h, o filme “Três Atos”, no Teatro de Bolso. No elenco Arlete Sendra, Beth Pacheco e Carolina de Cássia dialogam sobre vida e morte, memória, amor e o processo de envelhecer sendo quem se é. Entrada gratuita.

“Fantasias Textuais”

“A Arte é uma garantia de sanidade”. Louise Bourgeois.

1 comentário
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1 comentário

Rosane S R Vieira 17 de maio de 2025 - 13:52

Parabéns pela lucidez e sensibilidade na apreciação da obra de Louise Bourgeois.

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