Revisitando um texto que escrevi no ano de 2020, resolvi compartilhá-lo seis anos depois: “Dia desses, ao me maquiar para um evento, olhei para o estojo de sombras e tive dúvida ao escolher quais tonalidades eu deveria usar para a ocasião. Num primeiro momento, o que parecia um exercício estético trivial passou a me provocar. Percebi que as cores claras conferiam iluminação ao olhar, mas eram as cores escuras que destacavam os contornos e traziam profundidade. Recorri à minha intencionalidade que era revelar um olhar expressivo com iluminação e contraste. Logo, entendi que precisava da sombra tanto quanto do brilho daquela paleta de cores.
Depois da maquiagem pronta tirei uma foto do olhar que pareceu ter se transformado num espelho da alma. E é provável que tenha vindo dela a indagação: Quais são as sombras que você evita? Naquele instante comecei a refletir no equívoco em acreditar que a jornada do autoconhecimento, nomeada por uns como processo de individuação e por outros como busca do Si-mesmo seja um fenômeno capaz de transformar o indivíduo num ser de luz e isento de imperfeições. Especialistas em julgar a vida alheia costumeiramente o fazem, provavelmente por não quererem se dar o trabalho de compreender como, de fato, acontece tal processo.
Ocorre que, por sermos humanos, nossa natureza é dual e, portanto, há luz e sombra que compõem nosso interior. Bem-aventurados sejam os que reconhecem que a individuação não é uma vereda dotada da mesma boniteza presente no brilho das cores! Seguir por essa via é caro e exige coragem e sensatez para compreender que não se trata de um equivocado individualismo e nem de uma tola necessidade de performar para atender às expectativas sociais.
Para o psiquiatra suíço Carl Jung, o conceito de individuação consiste numa jornada que integra os aspectos da dualidade humana, culminando assim na arte de ser quem verdadeiramente se é de forma autêntica e imbuída de inteireza. Acolher essa dualidade é o primeiro passo para honrar quem somos, reconhecer quem não somos e investir em quem podemos vir a ser. Autodescoberta não é um processo que nos exime de encarar nossos fantasmas internos. Pelo contrário, nos torna hábeis para enfrentá-los e conscientes para reconhecê-los e até mesmo para saber como lidar com isso de forma corajosa e segura.
Afinal, não são as sombras ou as luzes que nos definem, mas é a integração delas que nos constitui. A vida flui quando a individuação acontece. Sejamos suficientemente corajosos para direcionar pequenos fachos de luz sobre nossa escuridão não para destruir as sombras, mas para termos clareza da complexidade de nossa totalidade. Afinal, parafraseando o “pai” da psicologia analítica “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”!
