A montagem do musical “Ópera do Malandro”, que está em cartaz no palco do teatro situado no Shopping Village Mall, no Rio de Janeiro, impressiona não só porque é uma ode ao magistral Chico Buarque, mas também porque surpreende desde o hall do Teatro Multiplan pela concepção estética estonteante e que permite uma experiência subjetiva que envolve múltiplos sentires a partir de percepções tátil, visual, auditiva e olfativa.
A referida peça musical permanece em cartaz até 30 de agosto e chama atenção não só pelos atributos anteriormente mencionados, mas também pelo compromisso com a representatividade ao reverenciar às entidades ancestrais e encantadas da Umbanda a partir da elaboração dos personagens em cena e por reforçar a responsabilidade social e política de Chico Buarque diante de sua obra musical intitulada “Geni e o Zepellim”, cujo o mote gira em torno da hipocrisia e ingratidão de uma sociedade preconceituosa e que hostiliza os excluídos e marginalizados, neste caso, a Geni que era uma travesti e que o diretor Jorge Farjalla, de forma muito sensível e contundente foi atento ao projetar um facho de luz sobre essa pauta, trazendo para o palco a talentosa multiartista Valéria Barcellos, a qual interpretou de forma visceral e potente a personagem Geni, usando de sua arte, como consta no programa da peça, “para evidenciar e territorializar corpos trans e negros em todos os espaços”.
Ao meu ver, o único descuido da produção revela uma falha monumental, que consiste na falta de avisos contendo indicação de alerta para neurodivergentes e pessoas com algum tipo de hipersensibilidade sensorial, como no caso de TEA e fibromialgia, tendo em vista que a ausência desse tipo de aviso informando que o espetáculo contém luzes fortes, estroboscópicos e sons altos, pode ser gatilho para deflagrar crises de hipersensibilidade sensorial e disautonomia, como ocorreu comigo devido o excesso de estímulos que acabaram transformando todo prazer inicial da fruição artística em minutos finais de uma experiência de sofrimento físico. Eu, enquanto entusiasta da arte aplaudo de pé todo conceito artístico do musical, mas na condição de PcD, deixo aqui um questionamento: Até que ponto a inovação estética justifica o silêncio que prejudica o espectador? Adotar avisos prévios nas bilheterias e redes sociais acerca dos possíveis gatilhos para neurodivergentes e pessoas com algum tipo de hipersensibilidade sensorial não dói.
O que dói é perceber que a acessibilidade é seletiva e que, na maioria das vezes, não contempla as pessoas com deficiências ocultas. Fato é que nós existimos, também somos consumidores e fazedores de arte e merecemos respeito. O aviso prévio de gatilho não significa que deixaremos de ocupar os espaços onde a arte habita, mas significa que estaremos cientes dos possíveis riscos à nossa condição e adotaremos os equipamentos de proteção sensorial conforme a necessidade individual. Afinal, o teatro precisa ser um espaço seguro, anticapacitista e que promove inclusão e acessibilidade plena para todos os corpos e mentes!
