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Autor

Marcelo Sampaio

Marcelo Sampaio

Nona Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 5 de maio de 2025

Celebração do corpo que fala, canta, reza, festeja e reivindica. Porque dançar é existir em contínuo movimento

O dia 29 de abril é uma data que dialoga muito bem com os palcos, os refletores e os aplausos. O mundo escolheu esta data para comemorar a dança, essa linguagem da arte que é ancestral e uma das formas mais genuínas de expressividade e comunicação humana. Antes mesmo das palavras, era o corpo que narrava histórias, exprimia emoções, clamava por chuvas e celebrava colheitas em diferentes culturas e povos. Certa feita, li uma frase que traz em seu bojo muito significado: “Dançar é rezar com o corpo”. Desconheço sua autoria, mas a ideia de “rezar com o corpo” sugere que a dança pode ser um ato de devoção, uma forma de comunicação com o sagrado ou com algo mais profundo e transcendental. A dança pode ser uma forma de conectar-se com a espiritualidade, expressar crenças e valores, e até mesmo recriar rituais. Nas celebrações religiosas e festeiras, como o reisado e o congado, a dança é oferenda, é fé que se move, é sagrado em constante movimento. Em algumas tradições, a dança é vista como uma forma de cura, tanto física quanto emocional e espiritual, pois ela pode ajudar a liberar tensões e equalizar o interior, além de permitir manifestar emoções e experiências que são difíceis de verbalizar. Seja nas rodas folclóricas, no batuque do jongo, na ginga do maracatu, no entrelaçar dos pares nas quadrilhas juninas ou nas avenidas do Carnaval, é o corpo que traduz as raízes culturais de um povo através dos ritmos, passos, compassos e sincronismos, traduzindo as emoções e a resistência de um povo através da dança enquanto arte ou recurso terapêutico. Dança também é saúde, socialização, autoconhecimento. Quem dança se permite libertar o corpo das amarras do cotidiano e alinha-se com o ritmo da própria alma. Em crianças, adultos ou idosos os benefícios vão do físico ao emocional – melhora a coordenação motora, estimula a memória, fortalece vínculos e eleva a autoestima. Profissionais da dança que atuam em todo território nacional aproveitaram o mês no qual o mundo comemora a dança, para intensificar uma reivindicação que tramita no Congresso Nacional há quase uma década, que é a regulamentação da profissão. A partir da aprovação do Projeto de Lei 4768/2016 os profissionais da dança deverão ser beneficiados com a garantia de direitos trabalhistas, como jornada de trabalho justa, descanso semanal e segurança no ambiente de trabalho. Pensando na celeridade da pauta, o Fórum Nacional de Dança lançou a campanha “Lei da dança já!”, mobilizando artistas e trabalhadores da dança de diferentes regiões do país para se unirem em defesa do projeto, através do abaixo-assinado em apoio à causa, com o intuito de pressionar sua aprovação no Congresso. Assine o referido manifesto você também: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdY1Vy0Zq-MO68OlZST9_U8W3kUV8fisLQY_3QXnWiLbbIh_A/closedform A iniciativa trata-se de um passo essencial para valorizar os artistas da dança, garantir direitos e fortalecer ainda mais essa arte que já é, por natureza, tão essencial à vida!

Nota da Semana

Dica para os despudorados de plantão: Assistam ao longa-metragem “Homem com H”! É de uma magnitude incrível, assim como é toda a vida e obra do emblemático Ney Matogrosso. Aplausos para a brilhante atuação do ator Jesuíta Barbosa. Em cartaz nos cinemas.

“Fantasias Textuais”

“Cantar nunca foi só de alegria

Com tempo ruim

Todo mundo também dá bom dia”. Trecho da canção “Palavras”, de Gonzaguinha.

5 de maio de 2025 0 comentários

Oitava Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 27 de abril de 2025

Dia nacional da música que en(canta) a alma sonora do Brasil

Quiçá poucos saibam que em 23 de abril comemora-se o Dia Nacional do Choro, esse que é um dos estilos musicais mais profusos e emblemáticos da música popular brasileira. No contexto desse rico universo musical, o nome apontado como um dos principais responsáveis pela consolidação do referido gênero é o do multitalentoso Pixinguinha. O maestro, compositor, arranjador, flautista e saxofonista Alfredo da Rocha Vianna Filho, ou simplesmente Pixinguinha, é considerado um dos maiores representantes do choro porque além de grande compositor, ajudou na consolidação do gênero, popularizando e tornando-o uma parte essencial da identidade cultural brasileira. O choro une influências europeias e africanas e emergiu das rodas de improviso dos músicos que tocavam em bares, praças e salões da cidade do Rio de Janeiro, lá pelos idos do fim do século XIX e início do século XX, sendo reconhecido por seu ritmo sincopado e complexidade melódica capaz de transmitir e evocar emoções profundas através da virtuosidade de todo o conjunto da obra. Outros nomes de destaque e bastante fundamentais para elevar o choro a um patamar de respeito foram os de Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Donga, os quais também contribuíram para a consolidação e difusão desse estilo. Noel Rosa, embora tenha focado seu trabalho predominantemente no samba, também explorou o estilo choro em muitas de suas obras. Atualmente, o choro resiste pulsante graças a grupos e músicos dedicados a preservar essa herança cultural com respeito e seriedade. Para quem é apaixonado pelo ritmo envolvente do choro, reuni algumas sugestões incríveis para extrair o supra sumo dessa vertente musical tão agradável e que se mantém vibrante no Rio de Janeiro. Toda terça-feira o Choro Batucada apresenta-se no palco do Glorioso Cultural, no Catete. Às quintas-feiras, o Choro da Glória apresenta-se no Espaço Cultural Paulão Sete Cordas, na Glória. Além desses, outros espaços afins como o Semente, no Centro da cidade e eventos como o Festival do Choro, promovido por instituições culturais, ajudam a fomentar e manter essa tradição viva e acessível a todos. Além dos nomes pioneiros já mencionados, há uma série de artistas contemporâneos que continuam elevando o gênero a um nível supremo. Entre eles, destacam-se nomes como Yamandú Costa, que mistura o choro com violão de forma magistral; André Mehmari, que atribui ao estilo um toque de respeito com requintes de inovação; e Hamilton de Holanda, que merece destaque por suas interpretações sensíveis e virtuosas, além de ser um importante divulgador e um dos fundadores da primeira Escola de Choro no mundo. Eu descobri também que foi por intermédio dele que o choro ganhou uma data comemorativa a partir de 23 de abril de 2000, já que o músico idealizou a petição ao Congresso Nacional para conceder ao choro um dia oficial em âmbito nacional. O Dia Nacional do Choro é mais que uma data a ser comemorada. Trata-se de uma oportunidade de valorizar e fomentar essa tradição cultural de inegável brio e que merece cada vez mais ser multiplicada e reconhecida pelo nosso Brasil afora, sobretudo pela significância cultural e histórica advinda do reconhecimento do choro como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, concedido em 29 de fevereiro de 2024 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, destacando assim a importância do referido gênero musical na diversidade cultural brasileira.

Nota da Semana

O Festival de Cinema Europeu Imovision já começou desde o dia 24 e segue até o próximo dia 30 de abril com a exibição de uma curadoria exclusiva de filmes inéditos e premiados, de oito países europeus. Vale a pena conferir e se emocionar através das telonas!

“Fantasias Textuais”

“Junto meu canto

a cada pranto

a cada choro

até que alguém me faça coro

pra cantar na rua”. Trecho da canção “Um chorinho”, de Chico Buarque, 1967.

27 de abril de 2025 0 comentários

Sétima Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 22 de abril de 2025

Especial 22 de abril – O que os livros didáticos chamam de “Descobrimento” os enredos carnavalescos chamam de “Invasão”

Há um ditado popular que diz que uma mentira contada inúmeras vezes, de tanto ser repetida, acaba se tornando verdade. E foi seguindo por esta via que os livros didáticos nos contaram a história de um Brasil “descoberto” em 22 de abril de 1500. Fizeram questão de manipular a verdade dos fatos históricos e transformaram invasão em ocasional descoberta e exploração em amistosa civilização. Ora, fato é que muito antes da primeira nau europeia despontar no horizonte da costa brasileira, já havia brasilidade cá por essas bandas! Havia povos originários praticando a medicina das florestas e comunicando-se com seus dialetos próprios, respeitando a natureza e seus ritmos internos; reverenciando seus deuses, praticando sua cultura e desenvolvendo sua espiritualidade com a sabedoria ancestral. Sendo assim, não há lógica em acreditar nessa versão ultrapassada de que o Brasil foi descoberto. Verdade é que o que aconteceu naquela ocasião foi o início de um ciclo de apagamento histórico a partir de uma ocupação forçada e sustentada pela romantização da colonização que resultou em muita violência e genocídio. Se por um lado os livros escolares manipularam a história verídica, por outro lado houve a coragem de uma escola de samba contá-la na avenida (e na íntegra)! É no Carnaval que o Brasil vê a oportunidade de se olhar no espelho e, genuinamente, se reconhecer. Em 2019 a Estação Primeira de Mangueira foi para a avenida com o enredo “História pra ninar gente grande” e recontou a História do Brasil, porém, sem eufemismo: “… Brasil, meu nego deixa eu te contar a história que a História não conta, o avesso do mesmo lugar, na luta é que a gente se encontra… Brasil, meu dengo a Mangueira chegou com versos que o livro apagou, desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento, tem sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado. Mulheres, tamoios, mulatos, eu quero um país que não está no retrato”. Esse trecho do samba-enredo é um verdadeiro manifesto, uma nota de repúdio e uma aula de reeducação popular que leva a questionar tudo o que os livros didáticos mantiveram escuso acerca da história do país. É, ainda, um resgate das memórias e dos sujeitos invisibilizados histórica e socialmente. É um ato de justiça social e cultural. Salve o Carnaval que a cada ano vem se revelando como o mais genuíno e grandioso espetáculo de sabedoria, conhecimento e manifestação popular!

Nota da Semana

O projeto “Todo Mundo no Rio” é uma iniciativa da prefeitura do Rio de Janeiro e patrocinadores que visa realizar shows anuais até 2028, cujo foco é atrair ainda mais turistas para a cidade, especialmente no mês de maio, aquecendo assim a economia de diversos setores, além de impulsionar o turismo. Após Madonna em 2024, Lady Gaga se apresenta neste ano, consagrando o Rio no cenário global da cultura. O referido projeto promete causar importantes impactos econômicos como a criação de empregos diretos e indiretos, tanto na produção dos shows como em atividades relacionadas.

“Fantasias Textuais”

Ela fez menção de modular o ímpeto da saudade que lhe ardia no peito e queimava-lhe a alma. Sem hesitar, pôs-se a discar, não quaisquer números, mas os que a aproximariam da voz rouca que, ao ouvi-la na linha, emudeceu emitindo apenas o som ofegante de uma vigorosa respiração, pondo-se a escutar o que ela, em desassossego de amor, tinha a dizer acerca do real sentido do que vem a ser esse mesmo amor:

-Poesia é amor

Viver é poesia

Poesia é harmonia no caos

Amor é letra perfeita com melodia

Poesia, no afã, é essencial

Amor, no divã, sinceridade

Poesia pela manhã

É movimento natural

Amor, meu talismã

Alçapão que aprisiona à genuína liberdade

Poesia é amor

Amor é pura sentimentalidade

Poesia singra entre o prazer e a dor

Amor veleja nas águas da cumplicidade

Entre marés que falam de poesia e amor

Lanço âncoras profundas no porto da saudade.

“Amor é poesia”. Eliane Gentile, 6 de julho, Inverno de 2023.

22 de abril de 2025 0 comentários

Sexta Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 16 de abril de 2025

Entre acordes musicais e prata líquida no céu: A noite dos tributos à poesia buarqueana

Em Campos dos Goytacazes, enquanto na noite da última sexta-feira o céu derretia-se em gotas outonais, dois tributos eram dedicados, simultaneamente, ao artista Chico Buarque de Hollanda em pontos distintos da cidade. Os especiais foram dedicados à genialidade do compositor carioca que, de forma sensível e pungente, domina com maestria a arte de mergulhar profundo nas complexidades de um eu lírico que descortina os anseios, dramas, paixões e sutilezas do ser mulher. Em uma determinada localização estava o músico Marcelo Ribeiro e em outro ponto da cidade situava-se a dupla Fábio Lopes e Gláucio Falcão, estes acompanhados do primoroso musicista Edalmo Porto que tocava uma espécie de fole, conferindo aos arranjos musicais ainda mais realce e densidade melódica. A boniteza marcou presença na noite que se banhava de prata líquida e reverberava acordes de requinte e bom gosto através de repertórios atemporais e bordados por canções constituídas de uma grandiosa essência lírica e eivadas de metáforas de qualidade. Quiçá, nenhum outro compositor desenvolveu a engenhosidade artística de expressar o desejo com delicadeza, a dor com doçura e o amor com poesia! Os artistas entregaram seu melhor e fizeram jus à grandeza do homenageado, emocionando com a qualidade indelével das composições buarqueanas que foram interpretadas com arranjos que respeitaram a densidade e leveza das melodias originais, conferindo a cada especial momentos únicos de rara beleza em uma noite esplendorosa e singular.

Nota da Semana

A peça “Fuzis” esteve em cartaz no último fim de semana no Teatro de Bolso Procópio Ferreira e revelou-se profundamente necessária. Com adaptação própria, a Cia de Arte Persona apresentou uma dramaturgia que transita entre a obra de Bertold Brecht, ambientada durante a Guerra Civil Espanhola no século XX, passando pelas lutas políticas do século XXI, até chegar nas lutas políticas sociais pertinentes a Campos dos Goytacazes, sempre mantendo a tônica do texto original que é lutar em defesa da democracia e do antifascismo. Quando estiver em cartaz novamente, está aí uma verdadeira aula magna de História que deve ser frequentada, sobretudo pelos atores sociais da Educação.

“Fantasias Textuais”

Certa vez olhei e vi o reflexo

Revelando o enigma do olhar complexo

Projetado no espelho da senhora do mar

Com parcimônia fez questão que eu soubesse

Que som de água e silêncio de prece

Coração humano abraça e aquece

E a alma da gente tende a se elevar

Aprendi também que água salgada

É território sagrado chamado de lar

Porque é de lá que eu sei que sou

Mas igualmente sou daqui também

Porque é para lá que eu sei que vou

Porque há amor onde a gente se reconhece

E se sente bem.

Quando tudo errado der, “mainha” me envolverá

No manto macio dos seus cabelos

Salve Rainha do azul!

Salve Rainha do mar!

Não há amor maior nesse mundo

Sentimento profundo e maior não há!

Nas águas salgadas que traduzem o choro

Existem sentimentos banhados a ouro

Vicejam a alma e renovam o olhar

Salve Rainha do azul!

Canta, mamãe Odoyá!

“Salve, Odoyá!”, Eliane Gentile, 2 de fevereiro, Verão de 2022.

16 de abril de 2025 0 comentários

Um abraço gigantesco

por Marcelo Sampaio 15 de abril de 2025

Quando as pessoas são de verdade os seus atos sempre causam impactos para lá de emocionantes e se tornam eternos.

É o caso deste abraço repleto de ternura entre a gigante assistente social Conceição Muniz e o não menos gigante presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva.

O dito cujo aconteceu durante a cerimônia de inauguração da nova sede da Universidade Federal Fluminense na cidade de Campos!

UFF 2
UFF 3
15 de abril de 2025 0 comentários

Quinta Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 6 de abril de 2025

Entre sambas e reflexões: O enredo carnavalesco como agente educativo na militância pela construção de uma cultura de paz

Na perspectiva de uma retrospectiva histórica, há cerca de uma década o cenário brasileiro nos âmbitos político e econômico estava marcado por conturbadas crises entre governo e oposição e, em consequência disso, iniciava-se a instauração de uma cisão profunda na sociedade, a qual culminaria em comportamentos polarizados que induziriam as pessoas à desidentificação com o senso de civilidade. Naquele momento histórico a Escola de Samba Unidos do Viradouro apostava num enredo para o Carnaval de 2016 cujo mote era conclamar o Brasil para a urgência em promover a união e tolerância, advertindo para que o respeito às diferenças fosse uma premissa nacional no combate à violência. A referida agremiação trazia o seguinte alerta em um dos trechos do samba-enredo: “Oh meu Brasil, Cuidado com a intolerância, Tu és a pátria da esperança, A luz do Cruzeiro do Sul, Um país que tem coroa assim tão forte, Não pode abusar da sorte, Que lhe dedicou Olorum”. Quase dez anos depois dessa recomendação quase profética, é nítido que o país permanece agonizando com essa polarização ideológica que banaliza a vida e naturaliza a violência que, infelizmente vem aumentando sem precedentes. Neste sentido, abro um parêntese para citar a filósofa Hannah Arendt que desenvolveu um conceito sobre “cultura da violência” como sendo esta “a condição em que a violência é considerada uma maneira legítima de resolver conflitos e as pessoas se tornam insensíveis à violência”. Em contrapartida, afirmo que em oposição à cultura da violência só mesmo cultivando uma contracultura que seja capaz de perscrutar o senso crítico, reflexivo e consciencial nos sujeitos, capaz de promover uma convivência possível e respeitosa em sociedade. E nesse quesito, penso que as escolas de samba tiram nota dez!

Nota da Semana

Nos últimos dias a previsão de chuvas torrenciais para o Estado do Rio de Janeiro e outros da região Sudeste fez com que autoridades e veículos de comunicação emitissem alertas à população para a necessidade de atenção redobrada e cuidados imediatos. Isso fez-me refletir sobre a urgente necessidade de voltarmos nossas práticas, individuais e coletivas, para a adoção de atitudes que favoreçam o equilíbrio ecológico e cuidados com o meio ambiente. Mas, esse é um assunto para outra pauta a ser desenvolvida em breve. Por ora, provoco a seguinte inquietação: Como nossas práticas têm impactado sobre a geração que deixaremos para o planeta?

“Fantasias Textuais”

Ela,

Abriu os olhos preguiçosos

Lembrou que hoje é domingo

Ouviu o barulho lá fora

Da chuva fina caindo

Despertou os aguçados sentidos

Arrepiou a pele de pantera

Cobriu-a de um chemise branco

E vestiu um colar madrepérola

Ela,

Abriu a janela do aposento

Entregou-se ao prazer sem pudores

Embrenhou-se num coito perfeito

Namorando a chuva e as flores

Saboreou o aroma e o gosto

Composto em seu café matinal

Tomando suco de uva

Degustando pão integral

Ela,

A mulher gozando na janela

A senhora do próprio destino

Amiga da chuva e das flores

Amante do fogo e do vinho

Aquela que se entrega ao desatino

Como diria Caetano

A verdadeira “dona do Carnaval”.

“Ela”, Eliane Gentile, 3 de abril, Outono de 2022.

6 de abril de 2025 0 comentários

Quarta Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 30 de março de 2025

Festival Doces Palavras: Celebrando a diversidade e o respeito em tempos de intolerância

Em Campos dos Goytacazes há os que acreditam na Cultura como ferramenta que assume um papel fundamental na formação, desenvolvimento e fortalecimento da democracia, oportunizando aos sujeitos não só a expressividade da pluralidade cultural, mas conferindo-lhes reconhecer a própria dimensão humana para enxergar o mundo e o seu entorno com maior clareza e aceitação de si e do outro, independente das diferenças que constituem o grande mosaico social que os tornam únicos. Pensando em fazer e promover a Cultura foi que na última sexta, 28, aconteceu uma reunião aberta na Academia Campista de Letras, com o intuito de pensar nos contornos de um importante festival de palavras que tem como marca registrada exaltar a cultura campista. Nos anos ímpares acontece o FDP!, iniciais do Festival Doces Palavras, que em 2025 culminará em sua sexta edição. Há os que são categóricos ao afirmar que tais iniciais foram intencionalmente criadas para referir-se àqueles filhos marginalizados (que são os fazedores de Cultura) da mãe estigmatizada (a própria Cultura), como uma forma de manifesto de subversão aos padrões convencionais de festivais literários. A curadoria do evento reuniu-se com membros da sociedade civil para mapear as necessidades, nomear os desafios e delinear caminhos viáveis que possam garantir e possibilitar a realização do referido festival dentro da data prevista no calendário. Que na terrinha do chuvisco e da goiabada cascão a realização da sexta edição do Festival Doces Palavras aconteça no mês mais doce do ano, em que comemora-se São Cosme e São Damião, e que a última palavra acerca da Cultura seja a de valorização da dita cuja, como prioridade no âmbito das Políticas Públicas de governo!

Nota da Semana

Há 190 anos Campos dos Goytacazes era elevada à categoria de cidade, deixando nos registros históricos o antigo nome de Vila de São Salvador de Campos, passando a ostentar em 28 de março de 1835 o nome atual, em referência aos nativos que habitavam a “Terra feita de luz e madrigais”. Parabéns, Campos, pela riqueza histórica e tomara que o desenvolvimento econômico seja o presente para os munícipes que declaram amor a você!

“Fantasias Textuais”

“O homem nasceu para aprender.
Aprender tanto quanto a vida lhe permita”. Guimarães Rosa.
30 de março de 2025 0 comentários

Dois enredos já definidos

por Marcelo Sampaio 30 de março de 2025

Pelo menos duas escolas de samba já definiram os seus enredos para o Carnaval 2026, uma do Rio de Janeiro e outra de São Paulo.

Na Série Ouro a Unidos do Porto da Pedra, comandada pelo carnavalesco Mauro Quintaes, contará na Avenida Marquês de Sapucaí a história das profissionais do sexo.

E pelo Grupo de Acesso 2 a Amizade Zona Leste vai desenvolver no Sambódromo do Anhembi o enredo “Xangô e Iansã, o casal do Dendê no Ilê do Amizade”!

30 de março de 2025 1 comentário

Terceira Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 23 de março de 2025

Violão que produz Choro também sorri e produz Samba: O solo do campista que faz a Holanda sambar

Que Choro e Samba são gêneros musicais brasileiros que mantêm uma co-relação entre si, não há dúvidas. E que ambas as vertentes musicais convergem quando o assunto é conferir valor à cultura e identidade popular nacional, não há imbróglios. Foi num clima intimista que a complexidade melódica do estilo musical conhecido carinhosamente pela alcunha “Chorinho” confluiu com o Samba e ambos os gêneros formaram a espinha dorsal da apresentação intitulada “Solo”, marcada pelo quilate das cordas do violão e voz de Rogério Bicudo, artista que se apresentou na noite do último sábado, em duas sessões, na Casa de Cultura Villa Maria, situada no quadrilátero histórico mais charmoso e bucólico da planície Goitacá. O músico entregou um repertório para lá de especial, composto por canções autorais e outros clássicos da Música Popular Brasileira. O público, nitidamente ávido por música de qualidade, agradou-se sobremaneira e aliou sua voz à do artista, formando assim um uníssono coral que entoou clássicos de Zé Keti, Paulinho da Viola e Chico Buarque. Em recente entrevista ao professor Marcelo Sampaio, Rogério Bicudo disse que sua relação com o universo musical deu-se ainda na infância e com seu talento nato, a partir dos doze anos passou a apresentar-se como músico profissional. Mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de aprimoramento e, posteriormente, alçou novos voos rumo a terras estrangeiras sempre em busca de conhecimentos na área profissional e desenvolvimento artístico. Vive há mais de três décadas no exterior e é dono de um currículo de respeito! Aliás, respeito é um valor inestimável que só é capaz de oferecer quem o tem. Um artista do quilate de Rogério Bicudo merece as mais dignas e merecidas deferências. Seus conterrâneos, admiradores e fãs estenderiam-lhe o tapete vermelho e, certamente, o indicariam ao Oscar se assim pudessem. Decerto, uma cidade cujos governos são incapazes de reconhecer o valor cultural imaterial dos artistas gerados no ventre da própria terra corre o iminente risco de, a longo prazo, perder a identidade com aquilo que lhe é pertencente, submetendo-se ao não reconhecimento de si no outro que é parte importante da tradição e memória viva. Salve os artistas da planície campista! Salve Rogério Bicudo!

Nota da Semana

O ano era 2005 e o medo, solidão, desilusão, indiferença e insegurança eram condições reais assim como permanece sendo vinte anos depois, uma vez que são inerentes ao ser humano. Estou me referindo ao filme nacional “Vitória”, um drama demasiadamente humano que está em cartaz nas principais salas de cinema, protagonizado pela imparável Fernanda Montenegro que retrata a coragem de dona Nina, testemunha ocular que da janela do seu apartamento presencia a voracidade do crime organizado engolindo pessoas de seu convívio e que ao lado do multitalentoso Alan Rocha leva-nos a sentir a profundidade da narrativa do filme que é sobre esperança.

“Fantasias Textuais”

“Ela desatinou, viu chegar quarta-feira

Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando

E ela ainda está sambando

Ela desatinou, viu morrer alegrias, rasgar fantasias

Os dias sem sol raiando

E ela ainda está sambando…” Trecho da canção “Ela desatinou”, de Chico Buarque, 1968.

23 de março de 2025 1 comentário

Segunda Coluna da Eliane Gentile

por Marcelo Sampaio 16 de março de 2025

“Cão sem plumas”: Dança que dá voz ao clamor dos invisíveis

Ao assistir o espetáculo da Companhia de dança Deborah Colker, “Cão sem plumas”, que é uma adaptação do poema de João Cabral de Melo Neto, fui atravessada pela intensidade dos sentires, no plural mesmo que é para denotar a quase totalidade dos sentidos acessados e a gama de sentimentos suscitados ao longo dos setenta minutos de apresentação. No palco do Teatro Municipal Trianon, em Campos dos Goytacazes, na última semana catorze bailarinos inteiramente entregues apresentaram uma performance precisa, expressiva e irretocável de movimentos síncronos de dança associados à arte cinematográfica. A partir de imagens projetadas no fundo do palco a aridez estática do agreste contrastou com os movimentos sinuosos de corpos enlamaçados e assim, ambos se amalgamavam expressando um profundo diálogo sobre a potência e ambivalência da dualidade da vida. A tônica do espetáculo pareceu-me está contida no enlace entre a performance no palco em tempo real e as cenas reproduzidas no filme, resultando numa conversa harmoniosa entre a imagética e a corporeidade, pois ambas as linguagens tornam-se facilmente confundíveis, tendo em vista que em dados momentos ocorre uma simbiose perfeita, a ponto de instigar o público a decifrar onde é que inicia o filme e termina a performance dos corpos presentes no espaço e vice-versa, corpos esses que se aglutinam à cenografia e contracenam com tiras de tecidos e caixas cinematográficas, onde estas fazem referência às palafitas que são habitações comuns aos povos ribeirinhos e aquelas aludem aos canaviais sertanejos. Deborah Colker idealizou com agudeza o espetáculo “Cão sem plumas” reunindo dança, literatura, cinema e música para transmitir a força e resiliência daqueles que são considerados os invisíveis da sociedade, mas que com uma força invencível se contorcem para sobreviver e transformar as próprias dores e tragédias humanas em arte e resistência.

Nota da Semana

Em uma sociedade onde o estresse e a ansiedade parecem ser constantes no dia a dia, a busca por alternativas que promovam o equilíbrio emocional nunca foi tão necessária. A Arteterapia é um processo que vai além da estética ou da habilidade artística, é uma das Práticas Integrativas Complementares em Saúde e permite a expressão de emoções de forma não verbal, proporcionando alívio e autoconhecimento para canalizar sentimentos reprimidos, aliviar tensões e até ressignificar traumas. Estudos comprovam que a prática estimula áreas do cérebro ligadas ao prazer e à memória, além de reduzir os níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse. Isso explica por que tantas instituições de saúde mental adotam a Arteterapia como parte de seus tratamentos, ajudando pacientes com ansiedade, depressão e até transtornos mais complexos. A boa notícia? Não é preciso ser artista para se beneficiar. Basta permitir-se experimentar e deixar fluir a expressividade dos conteúdos inconscientes.

“Fantasias Textuais”

Quando o amor acontece
Dá o tom da vida
À Bossa Nova
Que a gente é
Na vida desse amor ávido
Somente uma vez havido
Na vida da gente que navega
Junto a um mar de gente
E enaltece o tom da vida
E o tom da vida
Chama-se amor!
“Tom da vida”, Eliane Gentile, 22 de junho, Inverno de 2023.
16 de março de 2025 2 comentários
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